Pesquisa do Labclim analisou mais de 100 anos de dados históricos e aponta cenários para a vazante dos rios Negro e Amazonas diante da possível intensificação do fenômeno climático
Pesquisadores da Universidade do Estado do Amazonas desenvolveram um estudo inédito para prever os impactos do fenômeno El Niño sobre os rios da bacia amazônica em 2026. A análise foi conduzida pelo Laboratório de Climatologia (Labclim), coordenado pelo professor Francis Wagner, e utilizou modelos matemáticos baseados em mais de um século de dados hidrográficos e climáticos.

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A ferramenta criada pela equipe busca antecipar os cenários de cheia e vazante dos rios Negro e Amazonas, auxiliando órgãos públicos e setores econômicos no planejamento diante da possível configuração de um super El Niño nos próximos meses.
As projeções meteorológicas divulgadas em maio aumentaram a preocupação da comunidade científica internacional. O fenômeno, provocado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, pode provocar eventos extremos em diferentes partes do planeta. O Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos (CPC/NOAA) elevou o status climático para “alerta de El Niño” após identificar 82% de probabilidade de desenvolvimento do fenômeno entre maio e julho de 2026. A chance de permanência até o inverno do hemisfério norte, entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027, chega a 96%.
Apesar do alerta global, os pesquisadores da UEA avaliam que os efeitos sobre a Amazônia podem ser menos severos do que os registrados em episódios históricos, como os de 1997-1998 e 2015-2016.
Segundo Francis Wagner, o fenômeno ainda se encontra em condição de neutralidade no Pacífico, mas a tendência é de configuração entre os meses de junho e agosto. O coordenador do Labclim explicou que os modelos matemáticos mais recentes indicam intensidade variando entre fraca e moderada para a região amazônica.
O estudo também apresentou cenários específicos para a vazante do Rio Negro, em Manaus. Caso o El Niño atinja intensidade extrema, a projeção aponta que o rio poderá alcançar a marca de 12,37 metros no início de novembro. Em um cenário de intensidade forte, o nível estimado é de 12,13 metros no fim do mesmo mês.
Já em condições moderadas, o modelo projeta cota de 4,41 metros em novembro, enquanto um El Niño fraco resultaria em nível próximo de 5,32 metros. Sem influência significativa do fenômeno, a série histórica padrão indica vazante em torno de 4,51 metros no mês de outubro.
Além da capital amazonense, o levantamento também avaliou o comportamento do rio em Itacoatiara, município considerado estratégico para a logística de transporte e abastecimento da região Norte. A previsão indica cheia máxima de 14,08 metros por volta de 20 de junho, dentro da normalidade esperada para o período.
Apesar disso, os pesquisadores alertam que a maior preocupação está concentrada no segundo semestre, quando os efeitos da estiagem tendem a se intensificar.
A iniciativa da UEA pretende fornecer informações técnicas para apoiar decisões de órgãos estaduais, comitês de crise e empresas que dependem diretamente do regime dos rios amazônicos. O setor industrial e empresas de navegação já demonstraram interesse nos dados produzidos pelo laboratório, especialmente para planejar rotas e evitar prejuízos logísticos durante o período de seca.

