Contaminação em praia de Salvador completa 100 dias e afeta milhares de moradores

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Comunidade de São Tomé de Paripe aguarda medidas emergenciais enquanto órgãos públicos investigam possível origem química da poluição que compromete pesca, banho e renda de famílias locais

A comunidade de São Tomé de Paripe, localizada no Subúrbio Ferroviário de Salvador, enfrenta há 100 dias os impactos de uma possível contaminação química que atingiu a faixa de areia e as águas da região. O caso, registrado inicialmente em 19 de fevereiro, segue sob investigação e afeta diretamente milhares de moradores que dependem da pesca, da mariscagem e do comércio ligado à praia.

Edição: Divulgação

Os primeiros relatos surgiram após moradores identificarem forte odor semelhante ao de amônia e a presença de líquido esverdeado sob a areia da praia. Desde então, órgãos ambientais, o Ministério Público e outras instituições passaram a acompanhar a situação.

De acordo com a promotora de Justiça Hortênsia Gomes Pinho, do Ministério Público da Bahia (MPBA), pelo menos 10,7 mil pessoas foram diretamente impactadas pelo problema. A estimativa da comunidade aponta que mais de 18 mil moradores sofrem consequências econômicas e ambientais decorrentes da contaminação.

A principal suspeita é de que a origem do problema esteja relacionada ao Terminal Marítimo de Granéis (TMG), atualmente operado pela Intermarítima por meio do Terminal Itapuã. A área também foi utilizada anteriormente pela Gerdau, que administrou as operações até 2022. As atividades portuárias permanecem suspensas enquanto as investigações avançam.

Segundo a promotora, existem elementos que indicam vínculo entre a contaminação e as atividades realizadas no terminal. Entre as medidas consideradas urgentes estão a instalação de barreiras hidráulicas para conter a propagação dos poluentes e a realização de ações de remediação ambiental.

O Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia (Inema) realizou análises em diferentes pontos da praia e identificou concentrações elevadas de compostos nitrogenados e metais, especialmente cobre. Os estudos também apontaram sinais de contaminação em sedimentos, organismos marinhos e na água presente entre os grãos de areia.

Diante dos resultados, o local segue classificado como impróprio para banho. O órgão ambiental orienta que a população evite contato com a água, os sedimentos e atividades pesqueiras na área afetada.

Moradores relatam prejuízos que vão além das questões ambientais. Pescadores e marisqueiras afirmam que a redução da atividade pesqueira comprometeu a renda de centenas de famílias. Também há registros de irritações na pele e problemas respiratórios relatados por frequentadores da praia.

Representantes da comunidade denunciam ainda que a situação evidencia um caso de racismo ambiental, já que a maioria da população atingida é negra e inclui famílias remanescentes de quilombos. Segundo lideranças locais, mais de mil trabalhadores tiveram suas atividades diretamente prejudicadas pela impossibilidade de utilização do mar.

Uma ação civil pública está sendo preparada pelo Ministério Público Federal, Ministério Público Estadual e Defensoria Pública da União. Entre os pedidos previstos estão medidas de recuperação ambiental, auxílio emergencial para as famílias afetadas e indenizações individuais e coletivas.

A Prefeitura de Salvador informou que vem prestando assistência por meio da distribuição de cestas básicas, manutenção de restaurante popular e atualização de cadastros sociais. No entanto, a promotoria defende a decretação de situação de emergência para ampliar o acesso a recursos federais e fortalecer o atendimento à população.

As empresas envolvidas apresentam versões divergentes sobre a responsabilidade pelo episódio. A Intermarítima afirma que os indícios não apontam relação entre a contaminação e suas operações atuais, enquanto a Gerdau rejeita qualquer vínculo com o caso e sustenta que cumpriu todas as exigências ambientais durante o período em que administrou o terminal.

Enquanto as investigações continuam, moradores aguardam respostas sobre a origem da contaminação e soluções que permitam recuperar a praia e restabelecer as atividades econômicas da comunidade.

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